
Sentir medo é uma coisa estranha.
A gente tá lá, tranquilo, aí de repente acontece um fato, e a barriga esfria, as pernas tremem e os olhos da gente não consegue ver as coisas direito.
Quando criança eu tinha medo da chuva, trovões me causavam pavor, ainda mais quando essa chuva era no meio da noite, já era o bastante pra que eu pulasse pra cama da minha mãe e me aconchegasse no cantinho dela. Era só assim que eu me sentia segura, quando ela me fazia um cafuné e falava que estava tudo bem. Ali era onde eu me refugiava, e ali era bom.
Também tinha medo do homem do saco. Era só um homem estranho bater no portão, já ia eu chorando pra dentro, morrendo de medo. Escondia atrás da minha mãe e agarrava-lhe as pernas.
Tinha medo também de jornal nacional, plantão da globo, essas coisas... Eu pedia pra minha mãe mudar de canal, e quando não tinha nada de bom pra ver na tv, ela sempre tinha um desenho do pica-pau gravado pra que eu pudesse assistí-los ao invés de ver aquelas coisas horríveis que passavam no jornal.
E tinha os medos normais, de fantasma, de bruxa, de lobisomem... Mas nada que o colo da minha mãe não me fizesse me sentir bem.
Aí a gente cresce, e os medos ficam diferentes.
Medo de não passar no vestibular.
Medo de não arrumar um emprego pra bancar a facul.
Medo de não tirar notas boas na facul e pegar uma dependência.
Medo de não arrumar estágio.
Medo de não dar tempo de fazer monografia.
Medo de acabar a faculdade e não ser nada, não ter o emprego do sonhos.
Medo de não casar.
Medo de não ter dinheiro.
E quando se faz um exame, medo de pegar o resultado.
O medo de ficar sozinha em casa, se transforma em medo de ficar sozinha pro resto da vida.
O medo de fazer bobagem e apanhar do pai, se transforma em medo de fazer bobagem e não dar tempo de consertar.
O medo do puxão de orelha do pai, se transforma em medo de ser mandada embora do emprego.
O medo de não ganhar presente de Natal, se transforma em medo de não ter dinheiro pra pagar as contas no fim do mês.
Medo de não ser ninguém.
Medo de não conseguir ser quem se sonhava.
Eu sonhava em ser rica e poderosa, me casar aos 22, ter 2 filhos lindos, uma casa grande, um carro de luxo, vestir terninhos xiquéeeeerrimos e sapatos lindos...
Aí a gente cresce e vê que até se tornar alguém bem sucedido tem que ralar muuuuuuuito na vda, que pra casar não basta ter o príncipe encantado, que aos 22 eu nem terminei a faculdade e que ao terminá-la ainda vai demorar pra conseguir tudo o que a gente sonhou um dia.
E mesmo sendo alguém tão otimista, positiva, nem sempre se consegue ter um sorriso na cara o tempo todo.
Aos 22 anos ainda se tem muito medo. Mas medos com outras caras.
O medo na verdade nunca nos abandona. Ele apenas passa de fase e nos ataca em outros patamares.
A verdade é que ser forte não impede que lágrimas caiam. Que ser otimista não quer dizer esquecer que algumas coisas às vezes vão mesmo dar errado, o grande segredo está no jeito como vc vê e administra os efeitos do que deu errado.
O medo me assombra, mas não me vence.
Bate na porta de vez em quando, mas não me leva ao desespero.
As lágrimas caem, mas não me impedem de ver o pote de ouro no fim do arco-íris.
Prefiro acreditar que eles existem a viver uma vida olhando apenas para o caminho das pedras.
O medo é uma prerrogativa do ser humano, quem diz não tê-los não diz a verdade. A maneira como os tratamos é que define aquilo que poderemos ser....
E a trilha segue, como tem que ser......